Mãe Belmira, minha babá

taking-care-of-the-landTive 2 mães. Mãe Marisa e mãe Belmira. Era assim que eu as chamava. Uma, ainda é minha mãe; a outra deixou de ser quando eu tinha 12 anos, saindo de casa para cuidar de outras crianças.

 

Nas fotos de eu-criança, lá está uma jovem de traços fortes, quase índia, sorridente. Um futuro pela frente. E o futuro chegou: saindo de uma casa noturna, eu a encontrei guardando carros. Minha primeira reação foi a de evitá-la, fugir da cena. Estava gorda, envelhecida pelos anos de pobreza. Nas fotos, Belmira mostra-se bem mais jovem do que a mãe Marisa. Hoje, parece ser a mais velha. Deu seus melhores anos cuidando de mim e de meus irmãos. Por conta disso, engoli seco e fui em frente: olhei, chamei, ela sorriu, feliz com o reencontro: menino, como você está bem! Essa generosidade cortante, machuca.

 

Ali, no raro frio de Ribeirão Preto, me deu o abraço que suas forças podiam. Com um pulinho desajeitado, passou a mão na minha cabeça, como que se certificando se era eu mesmo e, depois, começou a perguntar da minha vida. Ao contar, vi como, dos meus 12 anos para cá, minha vida fora previsível, planejada e protegida. Fui beneficiário de todas as condições para estar na posição confortável em que me encontro e ser um cidadão que usufrui de muitos direitos. A trajetória dela também fora previsível e, segundo alguns, planejada pelo que se convencionou chamar de relações de exploração do trabalho alheio: emprego instável aqui e ali até ficar velha.

 

Com suor e a interferência de uns políticos, conseguiu uma casinha, que está sem manutenção e que divide com uma sobrinha, o marido da moça e os filhos deles num bairro habitacional longe e violento. Futuro incerto e não sabido: ganhava algum com os carros, mas pensava em deixar o ponto para o marido da sobrinha, que ficara desempregado há pouco. O trato era esse: quem dos dois achasse emprego primeiro, deixava o ponto para o outro. Perguntei se estar ali não era perigoso. Era. Mas tinha que ganhar esse dinheiro, ainda mais agora com o rapaz desempregado.

 

Mãe Belmira me explicou o esquema que inventou para proteger a si e aos carros dos bacanas, incluído aí, o meu. Vinda da roça, ainda jovem, para trabalhar na cidade, Belmira me diz que achou a solução nas galinhas. Ó só, as galinha não são fraca, sem defesa? E como elas se protege? Fazendo baruiera, respondeu. Então, Belmira comprou um apito e combinou com dois guardas noturnos que, se apitasse forte, era sinal de que estava em perigo. Diz que tem funcionado. E você precisa ver a disputa deles pra me ajudar!, disse ela escondendo o sorriso falho, me explicando o suposto interesse dos velhos guardas noturnos. Eu ri também, porque rir era uma maneira boa de estar com ela. Mas a ideia do que eu me tornei e do que ela se tornou permaneceu cortando.

 

Mãe Belmira veio jovem para a cidade, expulsa do mundo rural no começo dos anos 60. Se tudo que está escrito nas leis fosse cumprido, poderia sorrir sem vergonha, ter entrado na faculdade e sido psicóloga – que, aliás, é minha profissão e que ela sonhou um dia ser; poderia ter dedicado mais tempo para sua vida pessoal, como mãe Marisa fez; poderia ter se casado com o Motta, um príncipe policial de outrora; poderia ter ido a Santos além das vezes em que viajou para nos servir. Antes até de tudo isso, poderia estar, ainda, no campo, cuidando da pequena propriedade que os pais teriam lhe deixado. Sua vida também poderia não ser nada disso, mas, certamente, se as leis, pelo menos as mínimas leis morais, funcionassem, a vida teria sido mais digna do que estar ali, na rua, à noite, “tomando” conta de carros, que, para uma velha, nada mais é do que uma variante da esmola.

 

O que eu me tornei, o que ela se tornou, o que fizemos de nós, brasileiros, me envergonha doído. Fico sabendo hoje, que a minha mãe Belmira está acampada na ocupação do MST na ambientalmente degradada Fazenda da Barra, em Ribeirão Preto, “cidade do agronegócio”, onde cuidou, por toda a vida, de mim e de outros meninos bem nascidos. Meus parentes dizem que ela justificou sua adesão dizendo que quer voltar para o mundo rural, de onde veio. Tem gente que ouve e acha que ela não pode estar ali, afinal seu êxodo se deu há mais de 50 anos. Tem gente, como Xico Graziano, a quem li recentemente no Estadão, que tenta desqualificar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra por gente como mãe Belmira estar lá. Cheguei a ouvir que era ganância dela, já que partilhava uma casinha de Cohab com os 6 membros da família da sobrinha.
Muito cansada de ouvir a nós, os meninos bem nascidos, os donos de carros, os bacanas em geral falarem como deve tocar sua vida, Belmira responde assim: enterrei na cidade o pai mais a mãe e os irmão mais véio. Era tudo trabaiadô do campo. De que que adiantou? Pelo menos eu vou morrer na terra. Depois de um tempo em silêncio, completa: “só que antes, vou ver muita mandioca crescer aqui” diz, batendo o pé no campo recém plantado, num quase sorriso, o corpo todo esperança. É o seu jeito digno de terminar.

 

Adriano Gosuen

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