João e a geleia de alface

bebc3aaGeleia de alface e groselha de porco. Uma delícia. Um menino comeu e pediu para repetir tudo. Repetiu uma vez. Repetiu duas vezes. Repetiu três vezes. Três! No país dele, comer isso é uma delícia. Eles comem geleia de alface e tomam groselha de porco na festa de aniversário das crianças. Em vez de doce, geleia de alface. Em vez de suco, groselha de porco.

 

A festa foi na casa do João. Ele não gostava de geleia de alface e morava sozinho. Mas ele morava no quintal do pai dele, que morava no quintal da avó, que ficava no quintal da casa do pai da avó, o bisavô, que estava vivo ainda. O bisavô nasceu muito antes de existir geleia de alface. No tempo em que o bisavô do João era menino, tinha brigadeiro e sorvete e doce e bolacha e maçã e laranja e melancia e abacaxi, mas ninguém sabia que isso era de comer. Eles comiam outras coisas. Comiam janela, porta, sapato, tênis, camisa e meia. Depois acabou tudo. Por isso eles moravam no quintal. Não tinha mais onde morar, nem o que comer. As pessoas ficaram muito pobres. Ninguém ligava para os pobres.

 

Como ninguém ligava para os pobres, eles mesmos resolveram ligar para eles. Um pobre pegou o telefone e ligou para o outro, que ligou para o outro e, de tanto eles ficarem ligando um para o outro, os fios do telefone ficaram entupidos com tanta voz que tinha dentro. Elas se misturaram lá dentro, deu uma confusão danada.

 

Então aconteceu uma coisa esquisita. De tanto se misturarem, as vozes viraram uma só. Ela dizia assim:

 

– Comam geleia de alface. Tomem groselha de porco.

 

O pai do João pegou no telefone e perguntou:

 

– Por quê?

 

– Como assim? – perguntou a voz.

 

– Como assim como assim? – perguntou o pai do João.

 

– Eu não estou entendendo mais nada. – disse a voz.

 

– Claro que você está entendendo, eu estou falando português. – disse o pai do João.

 

Aí, era tanta confusão que ninguém fazia mais nada da vida. Todo mundo só falava ao telefone, tentando entender o que era que o pai do João queria saber. Até que o João, que não tinha nascido ainda, deu um grito bem alto:

 

– Eu quero nascer. Eu quero nascer.

 

Foi por isso que o pai do João parou de fazer tanta pergunta. O pai do João desligou o telefone e foi trabalhar. O pai do João era o mais perguntador do mundo. Depois disso, ninguém perguntou nadinha para a voz e começaram a comer geleia de alface e tomar groselha de porco.

 

Até que, no dia do aniversário, o João disse:

 

– Por que a gente come geleia de alface?

 

Adriano Gosuen

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