A vida íntima dos homens de gorro vermelho

saci (1)O que Papai Noel e o Saci Pererê têm em comum? Toda criança sabe: o gorro vermelho. De resto, um é grande, gordo e branco, enquanto o outro é pequeno, magro e negro. Mas há outra coisa que os une: ambos tem um passado curioso.

Por não existir referência à data do nascimento de Jesus, a Igreja a escolheu na mesma época das Saturnálias, festas populares do Império Romano. Estas, por sua vez, remontam às festas ao deus sumério Marduk, há 4 mil anos! Mas Papai Noel ainda não era uma figura, com o perdão do trocadilho, presente. Sua história começa no século III, com são Nicolau, homem generoso nascido na Turquia. Contam que salvou 3 mocinhas da prostituição ao lhes presentear com dotes para o casório. Papai Noel ainda recebeu influência nórdica, que o retrata como um gnomo de gorro vermelho presenteado pelos fazendeiros para que, satisfeito, trouxesse sorte. Da mistura de santo e gnomo, Noel chegou aos Estados Unidos pela mão dos holandeses. Um de seus descendentes, o poeta Livingstone, foi quem formulou o imaginário definitivo sobre Noel, ao publicar um poema em 1823. Mas foi só em 1931 que o publicitário Sundblom fixou a imagem atual de Noel, em anúncio para a Coca-Cola.

Se o Papai Noel é fruto da confluência de várias tradições, o Saci Pererê não deixa por menos. Nasceu ambientalista, pelas mãos dos índios guaranis e é parente do Yasi Yateré, que habita as florestas do imaginário argentino e paraguaio. A palavra pererê tem a mesma origem de perereca: pererek, em guarani, significa pular. Ser traquina era seu jeito de proteger a floresta daqueles que pretendiam usá-la de modo degradante. Os negros africanizaram o Saci, que ganhou um pito e perdeu uma perna na capoeira. Dizem também que as escravas, ao cuidar dos sinhozinhos, gostavam de contar sobre a valentia do menino negro que não se deixava mandar, tendo reforçado sua imagem rebelde. Dos portugueses, ganhou o gorro vermelho, influência dos romanos, que o davam aos escravos libertos. Finalmente, Monteiro Lobato foi quem fixou a imagem atual do sapeca.

Se, além do gorro, a confluência de várias tradições culturais é o que os aproxima, também há o que os afaste. O Saci, embora quase tenha desaparecido do imaginário latino-americano, começa a retomar sua força: dia 31 de outubro é seu dia oficial e já há grupos que criam Sacis, inclusive em Ribeirão Preto. Enquanto isso, Papai Noel vive um dilema: está cada vez mais famoso, mas cada vez mais vazio. Há muito deixou de ser o homem generoso, sensível com pobres e mulheres para se tornar um comprador compulsivo de presentes. Talvez outro barbudo o explique: Marx já dizia que o capitalismo tem como fim chegar a todos os lugares e transformar tudo em mercadoria. Parece que Papai Noel entrou nessa, enquanto o Saci, com seu histórico de resistência, renasce como símbolo do homem que deseja ser livre, como um dia foram os guaranis e os negros. Como serão, um dia, os latino-americanos. Quiça, com o gorro do Saci.

Adriano Gosuen

 

 

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